Índices de reprovação no exame de direção de candidatos à carteira de habilitação ultrapassam lei federal

Minas Gerais reprovou 64% dos candidatos. Em Rio Paranaíba, a última banca, em fevereiro, aprovou apenas 35% na prova prática. Moacir José da Barra esclarece os desentendimentos entre autoescolas e Delegacia de Polícia Civil. 

“A Delegacia nos pede uma coisa no manual e na hora do exame, o examinador cobra outra” , diz Moacir.

Um assunto que repercutiu muito nos últimos dias foi uma matéria publicada pelo jornal Estado de Minas sobre os índices de reprovação de candidatos à carteira de habilitação em Minas Gerais.
Segundo o jornal, 64% dos candidatos reprovam no exame de direção realizados no estado. O percentual está acima da média de estados como Rio de Janeiro (51%) e São Paulo (23%). Segundo lei federal, as autoescolas precisam aprovar no mínimo 60% dos candidatos, o que tem sido difícil para o Detran – MG. Em entrevista para o Estado de Minas, o chefe da Divisão de Habilitação do Detran – MG, o delegado Anderson França, declarou que se o órgão seguisse a risca a lei, muitas autoescolas seriam punidas e acha que o maior problema está na carga horária das aulas de direção. “Não é só em Minas, ninguém no Brasil consegue, porque não se a aprende a dirigir com 20 horas/aula. Pesquisei sobre os índices em outros estados e todos estão na faixa de 35% a 40% de aprovação. O Denatran é que precisa mudar a carga horária”, afirmou Anderson.

Rio Paranaíba
Em Rio Paranaíba a realidade não é muito diferente. Na última banca, apenas 35% dos candidatos foram aprovados em uma autoescola do município.
Angélica Tonaco, de 38 anos, já reprovou em seis testes e acabou perdendo a pauta. “Terei que começar tudo novamente, desde as aulas de legislação. Mas para mim, o que atrapalha é o nervosismo na hora do exame. Talvez a minha idade também seja um fator importante”, disse a candidata.
Lorena Oliveira, de 19 anos, passou no quarto exame. “Acho que o rigor no exame deixa os candidatos muito nervosos, pois é algo que além de causar constrangimento também envolve o financeiro. Uma reprovação resulta em mais taxas, mais aulas e o valor da carteira não é barato”.
Para o sócio-proprietário de uma autoescola do município Moacir José da Barra, o problema está no momento da avaliação. “São três fatores que afetam o exame: a preparação da autoescola, a situação emocional do candidato e o examinador. Há alguns alunos que nós percebemos durante as aulas que tem todas as condições para serem aprovados, fazem as manobras exigidas de maneira correta e acabam não passando no teste”. Moacir explica que o comportamento dos examinadores muitas vezes é polêmico. “Nós tivemos uma reunião no início de janeiro com a Delegacia de Polícia Civil em Patos de Minas, para discutir o novo manual, que já está em vigor. Um dos pontos mais debatidos foi o de que o examinador é o cartão de visitas do Estado, é ele quem representa o Estado nas bancas. Portanto sua postura deve ser a mesma com todos os candidatos. Nós temos casos em que um aluno sai do carro dizendo que o examinador foi ótimo e quando outro aluno faz o teste com o mesmo examinador a impressão é outra. Nós ficamos numa situação delicada, pois não temos controle sobre o que acontece dentro do veículo na hora da avaliação”, disse Moacir.
Ele contou também que há um projeto de lei que deveria estar em prática desde fevereiro que é o uso de cinco câmeras dentro do carro para a realização dos exames. “Soube de pessoas que haviam tomado bomba em três ou quatro exames refizeram a prova no dia da realização dos testes do uso das câmeras dentro dos veículos e que afirmaram que o comportamento dos examinadores foi diferente diante delas. O projeto já está aprovado e esperamos que logo a implantação desse sistema seja feito, para que nós possamos tirar a dúvida sobre isso.”

Robotização do aluno
Outro ponto que sempre gera discussão entre autoescolas e a Delegacia é sobre a chamada robotização dos alunos. Em declaração para o site Patos Hoje, o Delegado Regional Elber Barra Cordeiro, afirmou que um dos fatores responsáveis pela reprovação é a forma com que as autoescolas ensinam os candidatos. “Elas estão preocupadas em fazer com que o aluno aprenda a passar na prova. Isso está errado. O candidato tem que mostrar que sabe dirigir em toda a cidade”. Moacir se defende: “Em toda reunião o Delegado joga isso na nossa cara. O que acontece é que a aprovação está baixa e se nós não ‘robotizarmos o aluno’, fica ainda mais difícil. Uma das questões é por exemplo, o uso dos retrovisores. Alguns examinadores alegam que o candidato nao olhou para os retrovisores durante o exame, o candidato se defende dizendo que fez o uso. Quem dirige sabe que para olhar no retrovisor não é necessário virar muito a cabeça, porém, nós instruímos que o aluno faça o movimento de forma que não deixe dúvida para o examinador. Nós queremos ensinar o aluno a dirigir da forma mais adequada e dentro da lei, porém, o rigor da avaliação faz com que o treinamento os deixe robotizados”, esclarece Moacir.
Um candidato que não quis ser identificado contou a nossa redação que após quatro testes teve que recorrer a outro estado para ser aprovado. “Tive muitos problemas com os avaliadores, principalmente com a questão dos retrovisores. Uma das maiores diferenças que percebi na realização do exame no meu estado foi na hora de fazer a ré. Em Minas, o retrovisor não podia ser olhado, sob pena de elminação, lá, o uso do retrovisor para esta manobra é obrigatório e que ao meu ver, facilita muito”, disse o candidato.
Sobre o impedimento dos avaliadores do uso do retrovisor para a marcha ré, Moacir afirmou que no manual consta que o candidato deve olhar na retaguarda e também nos retrovisores, mas que na hora do teste, a orientação é outra. “É algo que também nos deixa pasmos, pois a Delegacia nos pede uma coisa no manual e na hora do exame, quem está fazendo a avaliação é que detemina o que pode ser feito”.

Lucro
Questionado sobre um possível benefício para a autoescola o fato do aluno reprovado precisar pagar mais aulas para o reteste, Moacir respondeu que a autoescola não tem nada a ganhar com isso. “Um aluno reprovado significa sim, mais aulas, porém é uma propaganda negativa para a autoescola. Sobre a questão do retorno financeiro, o candidato vai ser querer fazer mais aulas, porém, se ele fosse aprovado no primeiro ou segundo teste e falasse para um amigo que fez as aulas com a gente e esse amigo se tornasse nosso aluno, o retorno seria muito melhor, pois trabalharíamos com menos candidatos, de forma mais organizada, diminuiria despesas como telefone, por exemplo. Além disso, é de conhecimento de todos que a autoescola precisa estar com a média de aprovação acima de 60% para poder renovar o seu cadastro a cada ano. Como a reprovação está grande em todo o estado, a Delegacia tem feito vistas grossas, mas é o que está na lei”.